A terra não pausa, mesmo quando parece parada. Os animais não entram em férias. O cuidado é uma nutrição mútua, uma troca contínua que sustenta a sobrevivência de tudo, uma persistência invisível, espiralada, em um movimento sem fim.
O vínculo é uma das ações, das tecnologias* mais complexas que a vida desenvolveu. É o que sustenta uma floresta: raízes que se comunicam, fungos que trocam nutrientes, espécies que dependem umas das outras para continuar existindo.
(*) tecnologias – inteligências, um jeito de compreender ações, relações e formas de existir criadas por nós seres humanos.
A distância que nos separa das coisas não é apenas geográfica, mas sensível. Ao olhar para a Mata Atlântica, vemos uma massa de verde. Mas, ao se aproximar e se relacionar, surgem outros verdes.
Vínculo garante cuidado e, nos processos artesanais, transforma a ética da produção.
Claro que não dá pra ser ingênua. Há produções manuais inseridas em cadeias exploratórias. Há apropriações culturais esvaziadas de contexto.
Há “estéticas do rústico” que mascaram processos nada sustentáveis. O fazer manual também pode ser capturado como mais um nicho de cultura dos “comedores de mundo”, como diz Davi Kopenawa.
Um objeto feito à mão pode ser profundamente conectado à terra, regenerativo e circular. Mas também pode depender de insumos poluentes, explorar trabalho invisibilizado ou percorrer longas cadeias até chegar ao seu destino.
Podemos observar alguns sinais: a origem dos materiais, as relações de trabalho, a escala e a intenção, o vínculo com o território, a capacidade de reconhecer a coautoria com o meio, e a qualidade das relações que tornam a produção possível.
A técnica, por si só, não garante sustentabilidade. Ela emerge quando o fazer se torna relacional, quando escuta o território, respeita o tempo das coisas e transforma também quem faz. Neste sentido, sustentabilidade é um jeito de organizar o processo de produção, mas também de valorizar o olhar e o sentido de mundo, um mundo que é coletivo.
É dessa conexão com o que se cultiva que o aprendizado acontece, já que o fazer manual implicado nessa relação abre uma visão de longo prazo: a continuidade dos fazeres e as consequências de tudo o que tocamos. Porque, para existir continuidade, é preciso cuidado.
Torna-se natural valorizar o lugar onde se está, porque ele deixa de ser recurso e volta a ser relação. É dessa intimidade com o meio que nascem as técnicas, os ofícios, as maestrias. Mestres e mestras são aqueles que aprenderam a se relacionar com a terra, o tempo, os animais, os ciclos.
A potência das manualidades não está na estética, mas na prática de continuidade. Uma prática que encurta distâncias, torna visíveis as relações entre quem faz, o que é feito e quem recebe, que sustenta economias locais, preserva saberes e refloresta visões de mundo. Como dizia Nêgo Bispo “Nós somos o começo, o meio e o começo”
Movendo-se por um caminho ancestral, a rotina deixa de ser repetição e passa a ser enraizamento, um caminho que convida o passado a nutrir o futuro.
. . .
Escrita artesanal por Silvia Strass com Bruno e Ciça