Por uma cultura feita a mão

Podemos dizer que a cultura é como uma casa. Toda casa tem uma forma de organização que revela como as pessoas que vivem dentro dela pensam, se movem, se relacionam e valorizam. Somos nós que a construímos, ela nos acolhe, mas ela também nos forma.

Toda casa pode ser libertadora e aprisionante. A casa é a base do indivíduo, assim como a cultura é a estrutura para a sociedade. A cultura, como uma casa, é viva. Ela molda e é modelada. Carrega em si as complexidades e contradições do mundo.

Cultura é um ajuntamento de contratos invisíveis: códigos, crenças, arranjos sociais, formas de olhar. É linguagem e narrativa, uma maneira de compreender o mundo que orienta como agimos e pensamos. É através dela que nos reconhecemos como parte de um lugar, de um tempo, de um corpo coletivo.

Foi a cultura que nos constituiu como seres sociais, estabeleceu regras para convívio e dinâmicas sociais, mesmo em diferentes contextos. É por isso que iniciamos nossa vida nos braços de nossos cuidadores, e depois, expandimos: casa, quintal, rua, escola, bairro, cidade. Aos poucos, nosso corpo vai atravessando diferentes códigos, aprendendo a habitar outras formas de ser, ampliando repertórios de existência.

 

Levar o corpo para aprender

A formação cultural precisa ser presencial. Ela acontece no convívio, é vivenciada pelo corpo em movimento, pela forma como escutamos e falamos. É um processo artesanal, tecido na relação entre o que herdamos e o que encontramos no mundo.

Aprendemos cultura ao mesmo tempo em que a transformamos. É nesse fluxo que ela se torna base e caminho: de onde viemos e para onde podemos ir. Como cultura, fazemos escolhas e guiamos a nossa moral interna. Como cultura, podemos estar mais perto das tradições dos ancestrais, ou mais distantes. Como cultura, podemos valorizar mais os mistérios da natureza ou não.

É com o corpo em sua forma integral, com pele, olhos, orelhas, boca, mente e coração que absorvemos informações uns com os outros. Nos relacionamos com o mundo, e compreendemos formas, jeitos e cores. E é com essa mesma tecnologia viva que recriamos sentidos, relações e formas de existência.

Na linha do equador, por exemplo, onde a luz incide de forma mais homogênea e constante, as cores se intensificam. Em territórios onde o verde predomina, outras cores precisam emergir para existir. Não é por acaso então que em muitas regiões do norte do Brasil, as casas, roupas e objetos são mais vibrantes. A paisagem ensina, guia nosso olhar e jeito de estar.

Costumamos separar natureza e cultura como opostos, porém, fica evidente com exemplos como esse, que são elementos inseparáveis. Somos natureza produzindo cultura, e cultura reorganizando nossa relação com a natureza.

É pela cultura que aprendemos um jeito ou outro de nos relacionar com aquilo que é natural, com os elementos e materiais que a natureza oferece. O clima, o solo, os ciclos, tudo isso influencia os fazeres e também a escolha entre os materiais disponíveis. Não é de se espantar que em regiões mais secas e terrosas, florescem saberes ligados à madeira e ao barro. As mãos aprendem com a matéria e refinam essa prática.

Cultura, como prática, é o caminho que nos leva de uma existência isolada para uma vida em relação. É nessa intimidade com o meio que nascem as técnicas, os ofícios, as maestrias. Mestres e mestras são aqueles que aprenderam a escutar: a terra, o tempo, os ventos, os ciclos, as pessoas. 

Olhar com curiosidade àquilo que é comum na paisagem, saber ver o belo e o inesperado muitas vezes é o elemento que salta à vida e vislumbra possibilidades. E é assim, dessa relação íntima e artesanal que fica natural e vira parte do processo, valorizar a casa maior que habitamos.

A cultura é artesanal porque é nela que se constroem as possibilidades de permanência, pertencimento e continuidade. Ela nunca é neutra: nasce sempre de uma perspectiva, de um modo de ver e sustentar o mundo.

Os modos de fazer, de plantar, de construir, de ensinar e de conviver são, ao mesmo tempo, memória e projeto. Nos costuram entre passado, presente e futuro. Cultura é feita à mão pois não é repetição. Escolhemos o que continua, o que se transforma e o que precisa ser interrompido.

Nas mãos que moldam o barro, no gesto de levantar uma casa, de contar uma história, de cuidar de alguém, estão inscritos os mundos que estamos tornando possíveis. E é assim que a cultura começa a tomar forma de futuro, todos os dias.

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Escrita Artesanal por Silvia Strass com Bruno Andreoni

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!