A arte salva

“A arte salva o ser humano”, temos ouvido muito essa expressão.
Mas o que há de sagrado na arte, o que ela salva? O que existe na humanidade para ser salvo?

A humanidade é cheia de contradições. Somos barro moldado pelo meio. Harmonia e guerra. Criatividade e destruição. Força e fragilidade. Limite e potência. Empatia e exclusão.

Mas ser humano só se conjuga no plural. A humanidade nasce do nós, e de nós.

A arte dá saculejos. É poética e crítica. Cria desconforto, curiosidade, questionamento e abertura. Constrói pontes entre o visível e o invisível. Traduz experiências, amplia percepções e cria pertencimento através da partilha de emoções e visões de mundo.

A arte nos ensina a nos relacionar com o mundo de maneira aberta, em seu “transver”, como faz Manoel de Barros. Ela permite a todos serem criativos e criadores. Não tem a ver com talento ou dom, já que maestria se adquire com ritmo, persistência e repetição. É um estado de processo. Uma prática que pode ser cultivada.

Fazer é pertencer

Outro convite que essa arte que estamos chamando faz é reconhecer que fazemos parte de algum pedaço de chão. Pode ser um bairro, uma cidade, uma comunidade, uma floresta ou um continente. Pode ser pequeno como uma janela ou vasto como o mundo inteiro. Mas precisa ser habitado, observado, amado, transformado e também frustrado.

Fazer é participar dos processos da vida. É compreender a origem das coisas, seus caminhos, seus materiais, seus tempos e suas relações. Quando fazemos algo com as próprias mãos, compreendemos que toda criação tem começo, meio e fim. Passamos a perceber os materiais, os processos, as pessoas e as relações que tornam algo possível. Fazer nos lembra que toda escolha deixa marcas no mundo.

Fazer é um ato único, autoral e humano. É preciso trazer consciência para ele, e não adormecer na mesmice. Fazer nos lembra que nossos pés marcam o caminho. Que pertencemos a algum lugar. Que somos capazes de criar, transformar e assumir responsabilidade sobre aquilo que produzimos.

O fazer nos coloca em relação com o tempo: produzindo algo para o futuro, em uma relação de interação imediata com o presente, ativando memórias de aprendizagem do corpo no passado. Em tempos de não-lugares, a arte devolve presença.

Em uma época fascinada pela velocidade, pela eficiência e pela padronização, talvez as capacidades mais urgentes sejam justamente aquelas que as máquinas não podem cultivar por nós. A padronização por um esquema produtivo e probabilístico é um encerramento da vida em um único formato, em uma única verdade.

Ampliar olhares deixa a vida mais diversa, mais complexa, mais cheia de perspectivas. Se algo que a observação da natureza pode nos ensinar é que não existe apenas a verdade, e sim verdades.

A arte salva da tentação de acreditar que existe apenas uma forma correta de viver, pensar ou sentir. Salva a gente de cair no papo de que somos superiores aos outros, ou àquilo que nos cerca.

Arte no colapso

Neste mundo colapsado, qual o papel da Arte no mundo? 

O oposto do nosso desejo é propor um único caminho para a arte, ou uma única arte para o caminho. Debulhamos o assunto não em busca de uma resposta definitiva, mas da compreensão de quais capacidades humanas precisamos fortalecer para continuar existindo (juntos). A Arte ajuda neste processo, neste caminho, neste viver necessário no hoje.

Não basta também coisificar a arte, seja em produto, aulas, cursos, entretenimento ou ferramenta de produtividade. Não basta criar espaços criativos que apenas ornamentem uma lógica que continua produzindo isolamento, exaustão e desconexão. A arte sem conexão com você e com o outro não é arte.

Precisamos de uma arte viva. Capaz de despertar sensibilidades, fortalecer vínculos, reconectar pessoas aos seus territórios para ampliar nossa capacidade de construir futuros saudáveis.

Talvez a arte salve justamente porque cultiva capacidades humanas fundamentais para atravessar este tempo de colapso sem perder nossa humanidade: a capacidade de abertura, percepção, relação e ação no mundo.

A arte não salva porque resolve os problemas do mundo. A arte ajuda na busca de um novo velho jeito de se relacionar, de verdade, com a vida. Porque se a gente deixa de confiar, a gente deixa de se relacionar. E aí, sim, a gente deixa de existir.

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escrita artesanal por Bruno Andreoni com Silvia Strass

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!