O artesanal cria relações. E as relações cuidam do mundo.
Antes mesmo de nascer, já estamos existindo, e sendo cuidadas por pessoas. O mundo em que vivemos também já foi sonhado. Projetamos futuros todos os dias, mesmo sem perceber, quando imaginamos uma casa, criamos um objeto, cultivamos um jardim ou decidimos como queremos viver.
Quando trabalhamos com as mãos, a capacidade de transformar uma intenção em realidade fica evidente. Aprendemos a nos relacionar com os materiais, a origem das coisas, seus ciclos, o trabalho de outras pessoas e a trama da vida que torna tudo isso possível. O fazer manual revela as relações das quais fazemos parte e como elas podem se transformar em cuidado, garantindo que saberes e práticas sigam por gerações. Não precisamos conhecer o outro para que exista cuidado.
Sonhar está cada vez mais desafiador. Estamos exaustas, apreensivas com o futuro, o tempo parece mais rápido do que ele é. Há urgências que dizem respeito à nossa própria sobrevivência. E enxergar a crueldade do mundo, tantas vezes, dói demais. Seja raiva, desespero, cinismo, apatia ou distração, cada pessoa sente à sua maneira o peso de realidades que parecem grandes demais para enfrentar, mas na verdade são sintomas de que estamos tomando rumos contrários ao sentido da Vida.
O medo também ensina a imaginar futuros, mas a partir da ameaça. Dominados pelo medo, aceitamos mundos imaginados por outros, criados para nos transformar em robôs que consomem o mundo. Queremos proteger os nossos, como se fosse possível construir segurança isolando aquilo que amamos do restante do mundo. A minha família, a minha casa, o meu Deus, a minha segurança, a minha pátria.
Mas o que acontece quando, para proteger os nossos, deixamos de enxergar a trama da vida da qual dependemos? Quando nossas escolhas sustentam práticas e pessoas que destroem rios, florestas e comunidades?
O futuro das crianças que vivem ao nosso redor, e daquelas com quem elas vão compartilhar o mundo, também é construído pelas escolhas que fazemos hoje. O tamanho do nosso amor por elas aparece nos valores que alimentamos e nas vidas que ajudamos a sustentar.
Cuidado é alimento. E não existe vida que se sustente por muito tempo sem o reconhecimento dessa interdependência. Se não houver terra saudável, não haverá comida. Se um rio morre, toda a vida que depende dele fica ameaçada. Somos parte de uma rede muito maior que essa que nossos celulares nos capturam, uma trama da qual realmente não conseguimos escapar.
O fazer com as mãos nos faz sonhar com outros sentidos, percebemos que não estamos sozinhas. Dependemos dos conhecimentos que recebemos, das pessoas que vieram antes de nós e de tantas outras que tornam aquele trabalho possível. Até aquilo que parece nascer de uma criação individual carrega uma história coletiva.
Fazer com as mãos nos ensina sobre a Vida, numa constante relação entre micro e macro. Como em uma trilha por paisagens exuberantes, é preciso cuidar do passo, da pedra, do pé da outra. Ao mesmo tempo, enxergamos a minúscula beleza de um pólen, sentimos a presença de uma árvore gigantesca e contemplamos a força de uma montanha.
São duas paisagens, e a mesma. Nosso olhar é capaz de perceber ambas, e é essa relação entre o pequeno e o imenso que nos fez chegar até aqui.
Quando gostamos de fazer com as mãos, é fácil perceber que só existe indivíduo, se coletivo. Nossa existência se faz nas relações. Pode parecer um paradoxo, mas fazer com as mãos faz enxergar que a autonomia se intensifica com a dependência de um mundo saudável. Só podemos ser nós mesmas, e livres, quando reconhecemos essa trama.
Há algo profundamente nutritivo na colaboração. Ficamos com o coração preenchido quando cultivamos a generosidade. Ao cuidar de uma rua, de um jardim, ou de desconhecidas, participamos de algo que ultrapassa nossos interesses individuais. Somos nutridas, nos sentimos vivas, somos parte. É mágico, material, orgânico e simultâneo.
Quando sonhamos com um mundo mais artesanal, valorizamos a autoria e as relações. Sabemos que a vida do outro tem valor, ao mesmo tempo em que a nossa vida tem valor. Sabemos que o mundo é multicultural, e que todos os credos e formas de se relacionar com o mundo são importantes para que exista uma cultura rica, com democracia, e jeitos de fazer únicos e autorais.
O fazer manual faz perceber que somos responsáveis por cultivar relações saudáveis com a natureza, as mulheres, as crianças… com a vida.
Quando fazemos com as mãos, acreditamos em um mundo com florestas em pé, que reconhece a inteligência de diferentes povos e comunidades, compreendendo que não precisamos ser iguais para construir algo em comum, a favor da vida.
Quando fazemos com as mãos, sonhamos com um mundo mais justo, mais coletivo, com um trabalho que respeita o descanso, ócio, prazer, os ritmos naturais, e então não aceitamos como inevitáveis os modos de vida que outras pessoas, em outros contextos e com outras intenções, imaginaram para nós.
Cuidar da rua é cuidar da gente.
Cuidar da terra é cuidar da gente.
Cuidar do coração é cuidar da gente.
Cuidar dos sonhos é cuidar da gente.
Cuidar das crianças é cuidar da gente.
Sonhar com as mãos é também tomar o presente nas mãos, com discernimento e responsabilidade pelas escolhas que fazemos. A esperança não espera acontecer. Ela é ativa nos vínculos que cultivamos e nas escolhas que fazemos. Escolher o cuidado é também nutrir aquilo que nos permite criar com autoria, preservar nossa autonomia e construir outros modos de fazer e viver.
Que o sonho de um mundo mais artesanal desperte a força da vida e do real cuidado, que assim sonharam nossos ancestrais, com as mãos.
“Não quero nos chamar de América Latina
porque não somos só descendentes de latinos.
Somos descendentes de negros, de povos indígenas e de asiáticos;
somos descendentes de todos os pobres e perseguidos do mundo,
que vieram para a América para sonhar com o futuro.”
Pepe Mujica
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Escrita artesanal por Silvia Strass com Bruno Andreoni