Saúde: a capacidade de sentir
“…o erótico atua de maneira aberta e destemida, a capacidade para a alegria. No modo como meu corpo responde à música, se abre aos seus ritmos profundos, assim também cada nível do meu ser se abre à experiência eroticamente satisfatória. (…) Essa conexão comigo mesma é uma medida da alegria que sei ser capaz de sentir, um lembrete da minha capacidade de sentir.”
Dançar. Construir uma estante. Escrever um poema. Explorar uma ideia. Sentir que estamos vivas! Luxo, recompensa, merecimento, privilégio, excesso. Tudo isso passa pela nossa cabeça quando pensamos em prazer. Mas, se dor é um sintoma de que algo segue desajustado, poderia então o prazer ser uma forma de orientação? Sentir alegria, interesse, desejo e vitalidade pode nos ajudar a perceber onde brota a saúde?
Se observarmos os processos naturais, a vida evoluiu através da capacidade de sentir o entorno e compreender o que precisa ser adaptado. Organismos percebem o ambiente, respondem a estímulos e ajustam seu funcionamento às condições que encontram para continuar vivos. Sentir é uma das formas pelas quais a vida move a si mesma.
A sensibilidade não é apenas uma característica subjetiva ou emocional, é uma capacidade de perceber o que está acontecendo e responder a isso. É uma inteligência adaptativa, uma ação da vida que nos permite enxergar relações, reconhecer mudanças e sustentar a continuidade da vida.
Desconectadas e exaustas
Por muito tempo, afinamos nossa sociedade em torno de escala, velocidade e controle. Produzir mais, responder mais rápido, fazer mais com menos, estar disponível, chegar antes.
Desconectadas da vida, vivemos em estado de sobrevivência, e isso parece turvar nossa capacidade de nos conectarmos genuinamente com nossos desejos, com as outras pessoas, com o mundo, com nós mesmas, com a própria vida.
Apesar da avançada tecnologia da medicina, vivemos uma época de grandes adoecimentos. Intensificamos a velocidade, desestabilizamos ciclos naturais, ampliamos jornadas. Há pesquisas que apontam para a inseparabilidade entre a crise climática e as crises de saúde física e mental que atravessamos. Ainda cultivamos o hábito de reduzir a saúde às questões biomédicas e fisiológicas, como se um corpo saudável fosse apenas um corpo sem doenças, e pudesse ser separado das relações, dos territórios, dos ritmos e das condições em que a vida acontece.
Sentir é perceber,
A pesquisadora Lua Couto fala da sensibilidade ao mundo como a capacidade de perceber os sinais antes que eles se transformem em crise. O corpo faz isso o tempo todo. Antes de adoecer, ele costuma dar sinais: cansaço, tensão, fome, excesso, falta, prazer, desconforto, desejo e até a própria apatia.
Escutar esses sinais não significa obedecer a todas as sensações imediatamente, mas desenvolver a capacidade de percebê-las e compreender o que estão dizendo.
Vivemos uma espécie de negacionismo da vida: normalizamos formas de existir que nos afastam dos sinais do próprio corpo e dos ciclos naturais que sustentam a vida. A exaustão vira rotina, a falta de tempo vira mérito, a hiper disponibilidade vira responsabilidade, a ausência de prazer vira algo que deve ser compensado depois, geralmente, com consumo.
Cultivar saúde é também manter viva a vontade de viver, preservar a pulsão de vida, a vivacidade, o prazer. É perceber quando a maneira como estamos vivendo começa a nos afastar da própria vida.
A ação da sensibilidade
O fazer com as mãos tem uma potência que ultrapassa o objeto produzido, ele reativa a atenção ao corpo, à matéria, ao entorno, à origem das coisas, ao tempo, aos limites, ao próprio ritmo. É uma possibilidade de reconexão com a vida em relação. Quando desenhamos, bordamos, escrevemos, modelamos, cultivamos uma horta, cozinhamos, construímos uma peça ou trabalhamos com qualquer atividade manual, somos convidadas a retornar aos sentidos. Aprendemos fazendo, e compreendemos que tudo que existe participou de um processo da vida.
Praticar a experiência da resposta, e não da reação é ajustar o jeito, reconhecer um limite, enxergar, estudar, esperar, tentar de novo. São fazeres que nos devolvem à condição de seres sensíveis, situados e interdependentes.
É evidente que atividades artísticas e criativas têm benefícios para diferentes dimensões da saúde, incluindo bem-estar, redução do estresse, atenção, cognição e vínculos sociais. Mas o mais interessante não é apenas essa utilidade da arte, mas entender que ela pode carregar uma capacidade de reativar nossa sensibilidade
Permanecer Viva
Cultivar saúde talvez tenha menos a ver com controlar o corpo ou evitar qualquer doença, e mais com construir condições para escutá-lo. Ativar conscientemente essa inteligência da sensibilidade é recuperar a capacidade de sentir a vida enquanto ela acontece, construir condições para que ainda exista espaço para desejar, imaginar, tocar, criar, brincar, cuidar e ser transformada pelo encontro com o mundo. Ela nos lembra que não somos máquinas isoladas, infinitas e autossuficientes.
Cultivar saúde pode ser, antes de tudo, manter viva a nossa capacidade de perceber, responder, criar vínculo e continuar interessadas na vida, para manter a Vida viva.