Construir Inteligência: nossa identidade singular

Uma inteligência ganha forma quando encontra vida em nós. A maneira como ela se expressa, revela quem somos e a jornada que trilhamos.

Uma inteligência própria é também uma prática no mundo. Prática aqui, é o jeito em que o nosso fazer se manifesta: como decidimos, cuidamos, criamos e nos relacionamos. Somos seres que aprendem fazendo, a partir de um punhado de relações. Uma inteligência moldada pelas experiências que vivemos, pelas relações que cultivamos e pelo contexto que nos atravessa. É dessa trama que nasce um jeito próprio de agir no mundo.

Essa inteligência artesanal, pode ganhar diferentes formas de se manifestar, mas sempre carrega algo de singular.

Ao longo da vida, essa prática também vai revelando as perguntas que nos movem. Cada pessoa insiste em certos temas, observa o mundo por determinados ângulos e desenvolve um modo singular de respondê-los. É desse encontro entre tema e processo que uma inteligência singular vai ganhando contornos. 

É assim, de maneira natural e entranhada, que nosso gesto no mundo carrega um repertório cultural, afetivo e contextual, tecido nas relações humanas.

 A prática molda a identidade

Essa inteligência é uma lente que decodificamos a realidade, que traduz e organiza sentimentos e sensações, e que pode se tornar gesto, um toque, sem ninguém nunca ter ensinado.

Podemos percebê-la no nosso fazer cotidiano, no jeito de estarmos no mundo, na forma como lidamos com a família, com os amigos, com colegas de trabalho e com pessoas desconhecidas. O trabalho, aliás, é apenas uma das muitas maneiras pelas quais essa identidade se torna visível.

Esse universo, que pertence ao mundo adulto, é uma das possíveis maneiras de reconhecer essa identidade se manifestando nele. A prática dessa inteligência artesanal pode ser expressada como aquilo que produzimos, seja produtos ou serviços, e pode carregar sentido e satisfação, mas que para ser singular, precisa também carregar perguntas, motivos, descobertas que sejam sobre si e sobre o mundo. Essa qualidade de prática carrega uma natureza autoral, viva, reconhecível, e irrepetível.

A qualidade artesanal de um trabalho, seja de praticar a medicina, a advocacia, o pastoreio, as engenharias ou a cerâmica, pede de nós a natureza como a de algo feito à mão: algo que nos revela.

Esse jeito, de se praticar o trabalho, vai criando outras lentes de entendimento e compreensão de realidade e leitura de contexto, um entendimento sobre si, que aprende e refina a prática, descobre outros aspectos, e cria entregas para o outro e para si, de forma consciente.

Cada gesto repetido afia nosso olhar, reorganiza nossa percepção e amplia nossa capacidade de responder ao mundo. E então, dessa identidade, pode nascer a autoria, uma assinatura. 

A identidade não é um talento pronto, mas algo lapidado na experiência. Existe um ser único que é desvelado em cada um de nós, que se mistura com aquele que se entrelaça e vai se construindo com aquilo que nos cerca, com o contexto, com as relações, desafios e conquistas. 

“Tudo o que você toca
Você muda.
Tudo o que você muda
Muda você.
A única verdade que persiste
É a mudança”
Octavia E. Butler

Toda prática deixa marcas em quem a realiza, como um cabo de ferramenta que, depois de anos de uso, já conhece perfeitamente a forma da mão que o segura.

Reconhecer que não somos definidos apenas pelo que fazemos, mas pela forma como aprendemos a fazer é lapidar uma inteligência que se torna prática, uma prática que ganha assinatura e uma assinatura que, ao encontrar outras pessoas, passa a transformar a cultura.

Identidades moldam culturas

A identidade é algo que vai se moldando, criando forma e sendo conhecida, tanto para si quanto para os outros, e é também parte da formação de uma cultura.

Construir uma inteligência própria é, no fundo, construir uma maneira de habitar o mundo. Quanto mais reconhecemos nossa forma singular de perceber, compreender e agir, mais deixamos de apenas reproduzir modelos para criar cultura. Porque toda cultura nasce de práticas repetidas. 

Cada prática autoral amplia as possibilidades do coletivo, porque oferece uma nova maneira de ver, de fazer e de se relacionar. Pessoas, quando inteiras, estão também conectadas ao que as cercam, e colocam sua inteligência a serviço da vida, transformando, ao mesmo tempo, a si mesmas e o mundo ao redor. As mudanças podem começar quando  transformamos a forma de enxergar, praticar o cotidiano, e nossa própria agência nessa costura entre eu e nós.

As grandes mudanças começam quando transformamos a maneira de enxergar, de praticar o cotidiano e de reconhecer nossa própria agência na costura entre o eu e o nós. É assim que criamos cultura viva a partir de um acúmulo de inteligências que compartilham as mesmas vivências e experiências de vida.

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Escrita artesanal por Bruno Andreoni e Silvia Strass

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!