Uma outra IA: aquela que nos faz humanos

Já parou pra pensar que o fato de sermos bípedes nos possibilitou desenvolver um outro modo de aprender com o mundo? Ao andar sobre duas pernas, libertamos as mãos. E mãos livres, florescem.

“No pensamento Guarani, os dedos são as flores do corpo.
Por isso, os antigos dizem: Txepo pyte rankã poty,
no meio do corpo das mãos, há flores que geram meu corpo.”
— Carlos Papá

Com as mãos pegamos, sentimos, interagimos, manipulamos o mundo — e, com base nessa relação, criamos. Tocando a realidade, desenvolvemos uma inteligência múltipla. Aprendemos com o corpo. Criamos o que não havia. Modelamos a realidade.

 

Um mais um é sempre mais que dois

Vivemos em meio a revoluções. Atualmente, experimentamos a construção de uma era onde há tamanha influência do ser humano no planeta Terra, que muitos a chamam de Era Humana, ou ainda, Antropoceno, o que marca estarmos entrando em uma nova época geológica, caracterizada pela dominação humana e pelos impactos irreversíveis no meio ambiente. Uma época em que a lógica linear e binária vem chegando ao seu ápice — e talvez também ao seu limite.

Existe uma inteligência artificial que promete eficiência, previsibilidade, escala. Baseada em dados, estrutura-se em códigos binários. Rápida, precisa, útil, também vem modificando a forma como construímos conhecimento.

Há também outra lógica nesse planeta, uma lógica com uma visão múltipla, que entende o mundo em curvas e espirais que não são totalmente controláveis, e que compreende que a diversidade é o que nos faz vivos. Uma cosmovisão baseada no compartilhamento e no envolvimento com essa diversidade.

“Quando outros seres comem plantas, ou comem outros organismos que comeram plantas,
eles quebram a glicose e outras moléculas orgânicas para liberar a energia química armazenada.
Essa energia é utilizada para crescimento, movimento, reprodução e outros processos da vida.
A energia originada do Sol é assim, transferida entre uma multiplicidade de organismos
por meio da cadeia alimentar. (…) quando você come uma banana, você está consumindo a energia
que a bananeira armazenou pelo processo de fotossíntese.”

— Trecho do caderno O Sol Atravessa Tudo

Não é difícil enxergar a potência coletiva no encontro com uma floresta. Quando pessoas se relacionam com a dinâmica dos ecossistemas naturais, podem imitar e otimizar esses processos, a partir da interação entre diferentes espécies, que, com o manejo, são beneficiadas mutuamente. A agrofloresta é um exemplo muito vivo de uma inteligência que se relaciona em múltiplas camadas.

 

Inteligência Artesanal, aquela que maneja.

A inteligência artesanal é uma celebração da relação, e pode ser um convite para uma observação viva e envolvida com o entorno, para orientar ações no mundo, agindo a partir do que se vê e a criatividade.

Talvez esse seja um papel importante de ser humano: observar e catalisar processos naturais, potencializando cada qualidade, valorizando diferenças,  aprendendo com os outros e compreendendo a hora de manejar ou podar. O objetivo é colaborar para construir um espaço de troca e enriquecimento mútuo.

Uma inteligência humana é uma confluência entre sentir, fazer, pensar e criar, que só passa a ser assimilada ao ser vivenciada e praticada, ativamente. Vivenciar, aqui, é agir no mundo de forma ativa, que tenha uma expressão própria, que pode estar tanto no nível simbólico quanto no material. Cada ato se transforma em uma expressão única de quem somos, refletindo nossa identidade e nossas interações com o outro, no coletivo.

Não é fácil convocar nossa capacidade de viver crises, principalmente essa, multissetorial. É uma busca ativa persistir em caminhar, estar disponível a criar e recriar o nosso espaço nesta Terra-casa, comum a todos os bichos-gente, essa espécie exclusivamente terráquea.

 

Exatamente aquilo que a gente é

“Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além.”
— Paulo Leminski

Carregar essa infinidade de possibilidades em construir inteligências múltiplas que não somente a lógica racional, essa complexidade, enfim, de sermos seres humanos, pode nos levar além.

A inteligência artesanal é um convite para sermos mais presentes e agentes do mundo que queremos viver. Não é anti tecnologia, mas resistir a um risco de transformar tudo em só um jeito de ser, a uma monoculturalização do ser.

A percepção de que o corpo é pensamento pode abrir um campo potente de ação consciente com a vida. Inteligência artesanal é esse saber que nasce do corpo em relação com o mundo — um saber que tece e maneja com presença, que se abre ao vínculo e à escuta, que escolhe e se responsabiliza.

Quando alguém pinta, por exemplo, pode ampliar a percepção e notar que tudo muda: se o papel tem textura ou não, a temperatura que afeta a secagem da tinta, a maneira como a tinta se mistura ao papel, ao pincel — mais seco ou mais molhado. A mão, guiada pelo corpo, se move diferente se dormiu bem ou se teve uma discussão na noite anterior.

Tudo isso é exercício de percepção, de relação, de agir no mundo. Não se trata apenas de fazer, mas da prática constante de desautomatizar a presença, de pensar com o corpo em relação. É nesse espaço entre a matéria e a forma, como nos relacionamos com o que nos afeta, que habita a inteligência artesanal.

Talvez a questão esteja na substituição (ou desvalorização) de tudo que é artesanal, manual, cuidado. Uma cultura que vê o humano como obsoleto frente à máquina, esquece dessa inteligência surpreendente que tece, escuta, maneja, se envolve, propõe, cria e curva com a incerteza.

E então, talvez por isso, seja primordial reaprendermos a conviver e criar juntos, e potencializar essa inteligência artesanal. Para florescer, as plantas precisam de uma infinidade de outros seres que se cuidam. Mãos que florescem lembram que criar é uma forma de cuidar.

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Escrita Artesanal por Silvia Strass com Bruno e Ciça

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!