Quando o sonho encontra o chão

“Cabeça pensa onde o pé pisa”, diz Frei Betto.

Os sonhos não podem estar nas nuvens. Arrisco dizer que são como raízes, que nutrem as árvores pelas brechas da terra, numa conversa entre dentro e fora. Bom mesmo é sonhar com pés enraizados.

E mais: é preciso um universo inteiro para construir um sonho.

“Você se levanta de manhã, vai ao banheiro, pega a esponja e ela lhe é entregue por um
nativo de uma ilha do Pacífico. Você pega uma barra de sabão e ela lhe é dada por um francês.
E então você vai à cozinha tomar seu café da manhã e ele é servido na sua xícara
por um sul-americano. E talvez você queira chá: ele é servido na sua xícara por um chinês.
Ou talvez você queira chocolate quente no café da manhã e ele é servido na sua xícara
por um africano ocidental. E então você estende a mão para pegar sua torrada,
que lhe é entregue por um agricultor que fala inglês, sem mencionar o padeiro.
E antes mesmo de terminar o café da manhã, você já dependeu de mais da metade do mundo.
Essa é a estrutura do nosso universo, essa é a sua interdependência.”
Martin Luther King.

Estamos acompanhadas de muita gente.

Para sonhar é preciso lembrar”, ensina a sabedoria indígena mesoamericana. Quando uma casa se enche de objetos artesanais, por exemplo, é preenchida de uma camada de histórias, mãos, mestres, aprendizes, família, comunidades inteiras. Um objeto pode ser dispositivo de memória coletiva, carrega humanidade, ele fala de onde viemos, das referências que nos formam, das raízes que nos sustentam. É cheia de histórias que a casa ganha uma estética quente. Nos ajudam a lembrar.

Entretanto, na velocidade e na escala em que vivemos, sobra pouco tempo para sonhar e lembrar. Quanto custa um tempo acelerado?

É uma matemática diária transformar uma expressão autoral em sustentação material, sem perder a medida humana para construir, cotidianamente, uma escala sustentável que não faça esquecer da humanidade, que respeite os ciclos, a sazonalidade, o descanso, o tempo de aprendizagem.

Às vezes confundimos sonho com devaneio: nos distraímos, não nos envolvemos com a realidade, acreditamos ser possível evoluir em velocidade virtual, esperamos produtividade progressiva ou planejamos o sucesso florescer apenas de esforços individuais.

Muitas artistas aconselham não pedir à sua criatividade que te sustente sozinha. Ter um plano B deixa a criatividade fluir. De Elizabeth Gilbert a Rosa Monteiro, até os memes, alertam: trabalhe com o que ama e nunca mais pare de trabalhar.

“Prometi ao universo que escreveria para sempre, independente do resultado. Prometi cuidar da escrita, e não exigir que ela cuidasse de mim.” Elizabeth Gilbert

Ainda assim, a chamada economia criativa é o espaço onde muitos desses sonhos ganham forma. Em 2023, ela movimentou R$ 393 bilhões, o equivalente a 3,6% do PIB brasileiro. São milhões de pessoas transformando criação em sustento, tentando equilibrar fluidez e estrutura, intuição e planejamento.

A economia criativa é uma realidade, e também um sonho para artistas e artesãos. Encontrar o balanço entre sonho e estrutura é um desafio, já que, em muitas das vezes, todas as funções de uma empresa acontecem em uma só pessoa.

Mas viver da criação exige mais do que dados: exige compreender o próprio corpo como parte da estrutura produtiva, como força de trabalho. Incluir no planejamento caber ser humana é pensar o sonho com base na realidade. É enxergar as pessoas, e nós mesmas,  reconhecendo que, para continuar criando, é preciso cuidar da estrutura que sustenta o sonho: os corpos, os ciclos, a regeneração.

É planejar o ofício com base no ritmo real, e também onde construir bases mais estáveis, financeiras, emocionais, comunitárias, para permitir que a imaginação flua com mais liberdade em outros lugares. Tecer redes com artesãos e artistas como parte do planejamento, e não como acaso, descanso ou hobby.

Qualquer solução que prometa cortar caminho ou evitar a complexidade dessa matemática não vai funcionar.  Trabalhar com uma escala humana exige reconhecer e gerir recursos reais: tempo, energia, dinheiro, saúde, relações, capital social e capital afetivo. É construir viabilidade econômica enquanto se regenera o contexto de processos ecossistêmicos. É adotar um olhar de gerenciamento holístico que integra, e trabalha com rostos, e não apenas com métricas.

Sonhar com os pés enraizados é mover-se sabendo que as soluções não são individuais. É trabalhar numa escala humana, valorizando a minha criatividade e a do outro, criando intimidade sobre o que é suficiente, escutando o ritmo entre aprender, repetir, testar, aprimorar. É medir sucesso também por cuidado. É produzir sem acumular excessos, criando menos sobras e menos lixo.

Sonhar com os pés enraizados é saber que alguém vem depois, criar caminhos e reverberações que provoquem outros presentes de uma economia que não faça de nós mesmas o produto do sistema.

Trabalhar com criatividade é dar as mãos ao mistério, e ao mesmo tempo, treinar o olhar para a realidade mais concreta. O mistério deixa pistas na realidade.

Escolher continuar fazendo o que se ama é, diariamente, buscar olhar além e fazer a conta do possível, ter paciência para aprender com o tempo, repetir, testar, remodelar, checar acordos internos, decidir quando dizer sim e quando dizer não. Não perder de vista a nutrição. Conversar com a realidade. Começar a pergunta sabendo que não há resposta final, mas lembrar, sonhar, e enraizar o porquê.

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Escrita artesanal por Silvia Strass com Ciça e Bruno

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!