Tendemos a pensar que futuro vem de mãos dadas às máquinas e tecnologias. Ao mesmo tempo que chegamos em um presente complexo onde tememos o futuro. Imaginar ficou vazio. De acordo com o Relatório de Futuros 2025, feito em parceria com o movimento Teach the Future Brasil, 62% dos jovens expressam medo do futuro, e 78,5% associam o amanhã à ansiedade.
“Isso é um déficit de natureza, é uma falta de contato sensível
que as novas gerações estão experimentando em relação à terra.”
Ailton Krenak
Certamente, a forma como nos relacionamos com o tempo hoje é única na história. Tecnologias e forças econômicas constroem uma relação radicalmente diferente com o tempo. Desencadeando velocidades frenéticas, a relação com o passado e o futuro vai ficando cada vez mais distante. Ilhados no presente, ficamos cegos: as heranças que recebemos de quem veio antes, e o medo e a ansiedade de quem ainda está por chegar vão se tornando cada vez menos reais. O que mostra uma idéia de tempo estreita, e uma negação da nossa continuidade. O psiquiatra Robert J. Lifton chama isso de conexão perdida.*
O tempo é a essência do que nos constitui. Mas, a visão linear do tempo nos fratura do pertencimento. Acelerar o tempo nos aparta, nos faz esquecer de onde viemos. À medida que negamos nossa ancestralidade, despertencemos, nos desviamos da vida. A pressa é uma violência ao nosso ser. A vida “aqui e agora” é uma prisão, um isolamento do tempo espiralado que toda a vida vive.
Uma visão estreita do futuro nos faz estreitar também nossa visão. A pressa nos traz menos insight e criatividade. A crise multidimensional que vivemos é também do imaginário coletivo, que sofre de uma “monocultura do pensamento”, em que substituímos outras formas de viver, cuidar e pertencer por produtividade, velocidade e consumo, como busca relembrar Ailton.
Mas, como seres viventes da Terra, temos a habilidade e o direito de experimentar o tempo de forma mais saudável. Faz pouco tempo que vivíamos mais sintonizados com os ritmos ecológicos, e nossas conexões com os seres do passado e do futuro eram firmes. Precisamos reaprender a ser bons futuros ancestrais.*
Sonhar é fazer parte da criação
O momento em que vivemos é frágil e potente. Por isso, nada é mais vivo do que imaginar um outro agora. A imaginação é uma ferramenta essencial para lembrar que não somos apenas consumidoras do que já está posto, mas cocriadoras de caminhos individuais e coletivos. É através dela que conseguimos enxergar a teia da vida e percebermos nosso pertencimento intrínseco e inescapável com todos os seres. Sonhar é participar da Criação, sem ingenuidade, com presença e responsabilidade.
“Se a gente não reflorestar o nosso imaginário, nós não vamos conseguir produzir outro mundo.
Seria muito importante que a gente conseguisse reflorestar o imaginário das pessoas
que vivem há duas ou três gerações nas cidades,
para eles começarem a se sentir também filhos da Terra. ”
Ailton Krenak
Reflorestar o imaginário, como sugere Krenak, é o trabalho também de memória, é “resgatar histórias, símbolos e experiências que nos aproximem de novo da Terra e suas possibilidades múltiplas, e afinar a escuta para aquilo que vive antes e depois de nós”.
Enxergar que o tempo não é linear é perceber que somos continuidade. Isso refresca nosso espírito, nos aterra, nos desindividualiza, já que cada instante é completo porque contém todas as eras.
“O tempo é a substância da qual sou feito.
O tempo é um rio que me leva, mas eu sou o rio; é um tigre que me devora,
mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo.”
Jorge Luis Borges
“Agir de acordo com nossa idade”, como ironicamente sugere Joanna Macy, envolve reconhecer que carregamos células e órgãos que se formaram ao longo de milhões de anos de mutações e adaptações. Esse entendimento reforça a conexão com a Terra e a vida ao redor, nutrindo um senso de comunidade, fazendo a memória do ancestral garantir a própria memória, e da existência, uma dádiva e uma oferenda.
É claro que não é simples. O medo e a ansiedade dos jovens deflagra o desmoronamento de um sistema todo. É muito fácil cair na aceleração, por diversos motivos e camadas. Corremos para encontrar e puxar as alavancas antes que seja tarde demais.
Ainda assim, podemos buscar relembrar a escala humana e frear essa violenta reatividade com nossa própria natureza tocando ela mesma.
A grande maioria de nossos avós viveram apoiados nos fazeres manuais. Aliás, como já dissemos aqui, as mãos contribuíram imensamente nessa relação evolutiva com a Terra. Essa inteligência artesanal nos liga ao mundo, nos conecta a si mesmo, uns com os outros e [re]conecta aos ritmos mais naturais, à escala humana que modela futuros.
É incontável a quantidade de aventuras que as mãos já viveram até chegar na sua. Está tudo aí: cada mão modelando, herdando, aprendendo e sentindo o mundo, de sua maneira. Se tornando cada vez mais complexas e frágeis, abrindo outras possibilidades, contando pro resto do corpo o que só elas alcançam. Expressando um mundo invisível, indicando outras direções.
Muitas vezes não sabemos o que fazer com elas, e talvez esse seja um sinal de si mesmas de quando a ‘ligação’ caiu. Nossas mãos lembram que existe corpo. Ao tocar a si mesma, a vida nasce. No encontro entre mente e corpo floresce uma inteligência artesanal.
Experimente tocar levemente a outra mão, com a ponta dos seus dedos. Conte mentalmente quantas coisas elas já fizeram hoje (procurando letras no teclado, fazendo feitiços com temperos, ilustrando em gestos, sentimentos em uma história, enxugando lágrimas de uma cebola, te lembrando de alguém). Em cada gesto, você também toca 13,7 bilhões de anos de existência florescendo em você, o Universo.
Podemos reflorestar nossos imaginários trazendo maleabilidade e fluidez às materialidades rígidas do pensamento binário, como quem modela o barro. Podemos ativar nossa inteligência artesanal percebendo que o real não cabe só no que toco, e que meu pé pensa, ou melhor, que ele sentipensa, como diz Conceição Evaristo.
Que assim como a semente carrega o sonho de ser árvore, alguém te ofereceu o fruto para sua semente florescer. Se você lê essas palavras, é porque alguém te ensinou, porque outras pessoas escreveram antes, porque alguém ficou curiosa, acesa, escutou profundamente a língua, e quis inventar juntar letras, porque alguém quis se conectar.
Podemos buscar reflorestar nossos imaginários lembrando que toda história da Terra compõe a nossa história, que pulmões, plantas e mitocôndrias estão me respirando, que a vida não se esconde, mas está nas entrelinhas de tudo.
Reflorestar nossos imaginários é lembrar que cada movimento é um encontro com toda a Vida, que pertencer é inescapável, porque viver é, invariavelmente, fazer parte.
Que a gente possa refrescar nossos imaginários para não esquecer das nossas intenções, e “Reescrever a história do futuro no presente” (Taigen Dan Leighton), para então modelar futuros mais gostosos e saudáveis.
Assim olhamos para 2026 e que possamos ver e fazer futuro, artesanalmente, em cores, vivo, cheio vida.
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Claro que não poderia faltar o Calendário 2026 :: Glossário de uma Revolução.
Esse ano trabalhamos nosso calendário, nos ensaios em grafite, entre luz e sombra de Bruno Andreoni. Originalmente os desenhos foram realizados em escala de cinza e para a arte final nascem as cores e palavras para cada mês. O glossário cresce a cada ano e em breve nascerá uma publicação.
Clique aqui para fazer o download do calendário 2026
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Escrita artesanal por Silvis Strass com Ciça e Bruno
*fonte: “Nossa Vida Como Gaia”, Joanna Macy e Molly Browns, ed Bodisatva