Lembrar é o presente de uma viagem no tempo. A memória constrói uma ponte que conecta passado, presente e futuro. Ela envolve o ato de reunir cor, forma e aprendizado, sendo um processo integral, único e íntegro.
Falamos frequentemente sobre o que significa sermos seres únicos e autorais: nos conhecermos melhor, ter mais consciência de nós mesmos e expressar nossa humanidade através de nossas ações no mundo.
Nossa prática visa uma consciência do fazer artesanal, que incorpora nossa criatividade, história e repertório, transformando assim o presente. Esse processo reflete quem somos, carregando nossas experiências e podendo gerar o auto conhecer.
Enxergamos a integralidade como um estado de equilíbrio em movimento, um alinhamento entre os diferentes aspectos que nos compõem como seres únicos. Essa integração é mais evidente na aprendizagem e na construção da memória.
A construção da memória é uma costura
– junta-se fatos, sentimentos, sensações, espaço e tempo e então toda uma cena e uma história emerge novamente.
Produzimos nossas histórias de vida que ora são manifestos internos e ora são mostrados ao mundo através daquilo que fazemos. Sejam elas coleções artísticas e artesanais, ou em processos que desenvolvemos entre e com outras pessoas, a memória se faz como construção histórica e como legado.
A memória é uma característica extremamente humana. Ainda que nossa memória racional seja falha e pouco confiável, acessar a memória de forma consciente e escolher a partir dessa memória, é algo que somente os seres humanos são capazes. A memória conta história, carrega tradição e conhecimento lúcido, é nosso maior tesouro.
Aprendemos sobre o futuro com o olhar no presente e no passado.
Carregamos assim, um corpo de conhecimento que vem de gerações.
Acumulamos técnicas que vêm de passados humanos, conhecidos e também muito antigos, que se traduzem em tecnologia de ponta. Aprendemos a sentir os ciclos da natureza, as quatro estações, cantamos sobre saberes, sobre lendas, e como nossa sobrevivência está entrelaçada com o mundo natural, mantemos história de mistérios vivos, e também sobre morais e costumes. A memória é parte da construção de um ser humano integral. Transmite história, contexto, aprendizados e arquétipos da vida.
Construir memória é mover-se no tempo e na vida. Na infância a memória está relacionada ao movimento, ela mora nos músculos, e assim aprendemos sobre nossos limites de corpo, sobre o outro, sobre mover-se e se adequar. A memória mora nos corpos que se movem entre espaços e situações entre diferentes dinâmicas territoriais e culturais. A memória pede um processo integral de duração de como é e de como você está presente. Pede um estar imerso onde o tempo “rei” não é o do ponteiro do relógio, mas um tempo que é do processo.
A memória é a vida do saber interno que junta e separa sensações, sentimentos e vivências em lugares dentro de cada um.
Ela guarda os mistérios e explica a cada um de nós o que significa uma ou outra coisa, ela traz sentido ou traz também forma. Memorizar é um processo muitas vezes inexplicado, pede algo do presente, um cheiro, uma situação, uma cena, dor ou pessoa. Algo que hoje ativa o passado presente dentro de cada um e atribui a isso uma certa inteligência de vida.
Fazemos e produzimos memória para dentro e para fora.
Sabemos que nos povos tradicionais a memória é oral, cantada, ritualizada, pintada em grafismos corporais, já os brancos fazem memória em papel, escrevem narrativas lineares em livros. Essa construção de conhecimento e memória nos lembra também a seguinte imagem: escrever e produzir memória para fora do corpo é produzir memória para o mundo.
Neste lugar onde a produção acontece pela escrita, ficamos sempre imersos no pensar do escrever manual. Com o papel e caneta pedem gestos do corpo – postura, gesto e então forma. Ao pensar no escrever à mão, no quão inteligente é esse processo de construção de memória.
Gabriel García Márquez em seu realismo mágico, narra Macondo, em Cem anos de solidão, um tempo em que o esquecimento tomou conta. As pessoas escreviam lembretes sobre coisas e fatos: “Deus existe”, “bigorna”, “banana”. A realidade, escorregadia, só podia ser capturada momentaneamente pelas palavras, e ainda assim escapava. Sem memória, o caos se instalava, e cada um acabava inventando versões mais reconfortantes, mas também mais frágeis, da vida.
A memória, como uma inteligência integral humana, é um processo que é único para cada um, que apesar de utilizar os mesmos meios – corpo, vivência, contexto – é produzida a partir de uma inteligência integral e única de cada indivíduo para sentir e é uma junta misteriosa de sentido e de fatos, construindo aprendizados e repertórios únicos. E quando para fora, constrói em conjunto com outras memórias saberes próprios de uma cultura e de uma possibilidade social, constrói explicação sobre o cosmos e sobre as gêneses e sobre o viver.
. . .
Escrita artesanal por Bruno Andreoni com Ciça Costa e Silvia Strass