Inteligência Artesanal: uma outra IA que nos faz humanos

Texto escrito por Michelle Prazeres em parceria com Bruno Andreoni para a Coluna VivaBem | UOL

Em geral, temos uma ideia de futuro que está de alguma forma colonizada pela ideia de progresso. Achamos que o tempo é – como diria Ailton Krenak – uma flecha que aponta apenas para a frente; e esta noção está na raiz de como pensamos na evolução, no avanço, no crescimento.

Este modo de enxergar para onde caminhamos nos trouxe até aqui. Estamos vivendo uma crise planetária, climática e humanitária. Eu já compartilhei algumas vezes com vocês por aqui que me pergunto com frequência o que falta acontecer para entendermos que este modo de vida deu errado e que precisamos voltar algumas casas e desacelerar.

Este pensamento que correlaciona progresso, evolução a desenvolvimento e crescimento é comumente acompanhado de uma ideia de futuro que vem de mãos dadas às máquinas e tecnologias. É curioso. A vida acelerada, de um lado, faz a gente esperar com ansiedade por este futuro; mas vai nos retirando a capacidade de – no tempo presente – sentir e viver este porvir e então construir a possibilidade de sonhar e imaginar futuros diferentes.  

O Relatório de Futuros 2025, do movimento Teach the Future Brasil, indica que 62% dos jovens expressam medo do futuro, e 78,5% associam o amanhã à ansiedade. 

“Se a gente não reflorestar o nosso imaginário, nós não vamos conseguir produzir outro mundo”, afirma Krenak. Reflorestar o imaginário, como sugere o filósofo indígena, é trabalho também de memória, é “resgatar histórias, símbolos e experiências que nos aproximem de novo da Terra e suas possibilidades múltiplas, e afinar a escuta para aquilo que vive antes e depois de nós”. 

Nós só vamos conseguir reflorestar o imaginário se desacelerarmos e se valorizarmos o que chamamos aqui de inteligência artesanal, aquela que nos conecta com a nossa condição de humanos. 

Existe uma inteligência artificial que promete eficiência, previsibilidade, escala. Baseada em automação e dados, estrutura-se em códigos binários. Rápida, precisa, útil, probabilística, e também vem modificando a forma como construímos conhecimento.

A inteligência artesanal é uma celebração da relação, e pode ser um convite para uma observação viva e envolvida com o entorno, para orientar ações no mundo, agindo a partir do que se vê, da criatividade e do criar.

Esse é o nosso papel enquanto seres humanos: observar e catalisar processos naturais, potencializando cada qualidade, valorizando diferenças,  aprendendo com os outros e compreendendo a hora de manejar ou podar. O objetivo é colaborar para construir um espaço de troca e enriquecimento mútuo.

Uma inteligência humana é uma confluência entre sentir, fazer, pensar e criar, que só passa a ser assimilada ao ser vivenciada e praticada, ativamente. Vivenciar, aqui, é agir no mundo de forma ativa em um agir que tenha uma expressão própria, que pode estar tanto no nível simbólico quanto no material. Cada ato se transforma em uma expressão única de quem somos, refletindo nossa identidade e nossas interações com o outro, no coletivo.

Tudo isso é exercício de percepção, de relação, de agir no mundo. Não se trata apenas de fazer, mas da prática constante de desautomatizar a presença, de pensar com o corpo em relação. É nesse espaço entre a matéria e a forma, como nos relacionamos com o que nos afeta, que habita a inteligência artesanal.

É importante a gente contar que não se trata de ser contra ou a favor da tecnologia ou da IA, a artificial. Mas de reencontrar o espaço para o humano em um mundo que está maquinizando tudo, inclusive nós, nossos corpos e nosso agir, pensar e sentir. O que está em jogo é a substituição (ou desvalorização) de tudo que é artesanal, manual, cuidado. Uma desvalorização do que é o ser humano.  Uma cultura que vê o humano como obsoleto frente à máquina, esquece dessa inteligência surpreendente que tece, escuta, maneja, se envolve, propõe, cria e curva com a incerteza.

E então, talvez por isso, seja primordial reaprendermos a conviver e criar juntos, e potencializar essa inteligência artesanal. Esse é nosso convite.

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Michelle Prazeres [Jornalista e Colunista de VivaBem – UOL] com Bruno Andreoni [Artista visual dos papéis e cores, educador, consultor para desenvolvimento de iniciativas sociais e criador da Revolução Artesanal.]

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ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!