Economia em escala humana

A inteligência artesanal pode mudar a maneira como pensamos economia?

Nossa vida está cada vez mais abstrata. Ainda que nossa existência dependa completamente dos sistemas naturais, estamos cada vez mais distantes dos processos básicos de manutenção da própria vida.

A distância entre produção e consumo faz com que as coisas pareçam existir espontaneamente nas prateleiras, como se não dependessem de recursos naturais, trabalho humano e tempo.

Quando quase tudo chega pronto, o que aprendemos é escolher, usar, consumir e descartar rapidamente. Nossa autonomia se torna radicalmente frágil, e ficamos mais dependentes de sistemas que não conhecemos e sobre os quais não temos nenhum poder de decisão.

Tivemos a oportunidade de enxergar essa fragilidade com clareza durante a pandemia. Ao comprar alimentos da agricultura familiar, por exemplo, podemos construir uma relação, e isso traz uma segurança em tempos incertos muito maior do que comprar de uma rede de supermercados. Quando temos o dinheiro como mediador das relações de troca, vivemos uma economia que separa, hierarquiza e fragiliza o tecido social.

Sob o contexto do ambiente urbano, podemos nos chamar, provocativamente, de analfabetos funcionais: não saber como produzir comida, casa ou utensílios, ou de onde vem o que compramos, que substâncias estão presentes nas coisas que usamos na pele e cabelos, quanto trabalho exigem, quais recursos consomem e para onde vão quando deixam de servir.

As mãos também pensam

Quando trabalhamos com as mãos, aprendemos a transformar uma intenção em realidade. Os materiais oferecem possibilidades, e também limites. Nem tudo acontece como imaginamos. Dessa relação entre intenção, matéria e experiência brota uma inteligência. Ao fazer, descobrimos que as coisas não aparecem prontas, são construídas.

Contar essa experiência parece até poética. Mas, longe de ser apenas uma metáfora bonita, ela produz um tipo particular de saber. Quem aprende a reparar um objeto, cultivar um alimento ou transformar uma matéria-prima não adquire apenas uma habilidade técnica. Aprende sobre autonomia da vida e que é possível intervir na realidade em vez de apenas escolher entre as opções oferecidas, criadas e imaginadas por outras pessoas, contextos e intenções.

Uma artesã que produz cesto de fibras naturais, por exemplo, não conhece apenas a técnica de trançar. Seu saber pode incluir as ferramentas, os períodos de coleta, os efeitos do clima, o preparo da matéria-prima, o tempo necessário para produzir, as possibilidades de aproveitamento e as condições do território.

Para dominar o ofício, ela precisa compreender como essas coisas se relacionam. Em uma economia cada vez mais especializada e fragmentada, esse conhecimento do processo inteiro é especialmente valioso: quanto mais profundamente uma pessoa conhece um material, mais relações ela aprende a perceber ao redor dele.

Isso ultrapassa o campo artístico: pode transformar a maneira como consumimos, projetamos, descartamos e valorizamos o trabalho de alguém.

Precisamos conhecer nossos limites

Economia é a ciência que estuda como a sociedade produz, distribui e consome bens e serviços para lidar com os recursos limitados. Falamos em crescimento, produtividade, escala e eficiência, mas nem sempre enxergamos todas as condições que tornam a produção possível.

Uma economia em escala humana está onde nossa mão alcança, e reconhece que toda atividade produtiva depende de recursos reais: tempo, energia, dinheiro, conhecimento, trabalho, relações e condições ambientais. Esses recursos têm limites e ritmos próprios.

Em uma economia que frequentemente trata a natureza como fornecedora inesgotável de insumos, a inteligência artesanal relembra um ponto fundamental: a capacidade de produzir depende dos limites dos sistemas que sustentam a produção.

Se a demanda daquela artesã aumenta, portanto, não basta produzir mais. É necessário levar em conta o tempo de regeneração da planta, a sazonalidade, as condições do território, com quais plantas ela faz alianças ou causa destruição, a capacidade de trabalho de quem produz. Essa relação próxima com a matéria pode gerar algo urgente hoje, que é uma compreensão mais concreta de responsabilidade com o mundo natural.

É claro que nem toda produção artesanal é sempre sustentável. A pressão comercial também pode levar à exploração excessiva de recursos e à precarização do trabalho. Mas o conhecimento construído na relação entre pessoas, materiais e territórios pode contribuir para decisões produtivas mais conscientes.

Na economia, a eficiência costuma estar associada à capacidade de produzir mais em menos tempo, reduzir custos e ampliar a escala. Esses critérios são importantes, mas não contam toda a história. Eficiência deixa, então, de ser apenas uma questão de velocidade ou volume. Passa a incluir a capacidade de usar bem, durar, reparar, reaproveitar e regenerar.

Entretanto, o que vemos na maioria das vezes, é que a produtividade aumenta com o consumo de recursos num ritmo insustentável, gera resíduos ou compromete as condições de trabalho de quem produz.

Na outra mão, uma peça pode continuar gerando valor muito depois de sua venda. O aproveitamento de sobras, a recuperação de objetos e o uso responsável de materiais também podem reduzir desperdícios e criar oportunidades econômicas.

É claro que a inteligência artesanal não oferece sozinha respostas para todos os desafios econômicos e ambientais. O fazer artesanal lembra que a economia não existe separada da natureza e das relações humanas, e carrega um tipo de inteligência que pode participar das decisões que precisamos tomar agora.

Talvez eficiência não seja apenas produzir mais com menos, mas também saber o que uma economia precisa manter viva para continuar produzindo.

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Escrita artesanal por Silvia Strass

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!