Nossos cérebros adoram novidade. As redes sociais exploram essa brecha, o mercado exige inovação. Queremos sempre algo novo.
No senso comum, repetir uma ação parece vazio, quase morto, tarefa destinada às máquinas. Mas existe outro jeito de conduzir a repetição: aquele que afina o corpo, desperta a curiosidade e conduz a um avanço, no sentido de sair de um estágio e alcançar outro.
Repetir não é perder tempo, já dissemos aqui. A repetição é onde o aprendizado se enraíza, onde o gesto amadurece e se refina. Cada vez que repetimos, aprendemos e nos adaptamos.
Repetição artesanal
As artesanias, sejam elas de qualquer ordem, pedem esse tempo. Precisam da repetição para se tornarem um fazer, uma narrativa, um objeto ou gesto que carregue a qualidade simbiótica entre quem cria e o mundo.
No contexto artesanal, repetir não significa automatizar, mas abrir um espaço vivo, digno de atenção e cuidado. É nesse espaço que as técnicas se aprimoram e uma prática própria se constrói. Na repetição viva, a pessoa artesã aprende, adapta-se e se relaciona com o mundo vivo, deixando que cada criação seja ao mesmo tempo familiar e única.
A repetição constrói uma inteligência artesanal que é pesquisa, refino do gesto, estruturação do saber e do estar no mundo, quase como se fosse natural. No ponto de crochê que se repete, ponto alto após ponto alto, até formar um tecido. No barro que, em cada peça, se modela em caneca hoje, vaso amanhã.
Repetir é cultivar um tempo de relação com algo. É a repetição com essa qualidade que a pessoa, artesã de si, aprende e se adapta em cada criação. É da intimidade com os materiais e com a técnica que nasce o aperfeiçoamento e onde vou me tornando um artífice, um mestre dela.
Ou ainda mesmo na vida cotidiana: cuidar da casa, do corpo, cozinhar, cultivar plantas, sustentar a profissão, as muitas relações, onde a cada dia vou tecendo, construindo o meu caminho, dentro de um contexto que vivo e quero viver. Essa prática viva cuida do ser. São essas repetições que tecem significados, conexões e pertencimento genuíno com a comunidade, a natureza e a vida.
Igual, mas diferente
Também podemos repetir como as máquinas, como os algoritmos e a inteligência artificial, mas a repetição consciente tem outra qualidade.
A inteligência artesanal, que inclui memória e imaginação, compõe uma leitura tridimensional, multicamadas e única, porque carrega a experiência de cada corpo e o contexto em que está inserido. Ela experiencia, olha, cria, faz memória, incorpora e transforma através de uma observação viva.
A prática manual ilustra bem essa ideia. Repetir aprendendo é criar soluções únicas. Cada objeto, gesto ou linha guarda a memória do que já foi feito e, ao mesmo tempo, abre espaço para inovação. É sustentando essa dicotomia que avançamos para outro estágio da prática.
Repetir para sair do mesmo
Repetir também pode alimentar a curiosidade, permitindo que corpo e mente explorem variações, sutilezas e possibilidades. O novo e o antigo florescem juntos.
É repetindo que as mãos ajustam o pincel para que ele flua naturalmente, e descobrimos que, ao colocar mais água, uma pocinha bonita vira uma marca d’água inesperada no papel que respira.
A repetição assim, vai criando caminhos de identidade, mesmo que em pequena escala. Com o tempo, o domínio da técnica permite não só mais velocidade, mas um gesto singular, reconhecível. Aprimorando o toque, o jeito e a forma, a identidade cria padrões, aquilo que é único e se repete em diferentes situações, nas formas de trabalhar, criar e se relacionar.
A artesania como atividade social coletiva é transformadora. Com crianças pequenas, repetir, ter uma rotina, é garantir segurança ao desenvolvimento. Ter ciclos claros diários e repetidos por um certo tempo ajuda a criança a se localizar, a sentir que existe um ambiente seguro ao qual ela possa explorar.
Nesse aprendizado, porém, o inesperado é o chão. É o espaço para criar o novo, abrir possibilidades de ir além, para novos e outros lugares, estar em movimento. Com isso, a frustração frequentemente aparece: muitos erros, e um treino de humildade, coragem e até de certa obsessão. Porém, é essa janela do inesperado que carrega uma potência fértil, e abre espaço para um aprendizado que pode ser como uma conversa.
Podemos olhar a rotina como criação de caminhos. A rotina traz a estrutura e segurança para aprender e fluir melhor em uma técnica, fazer ou gesto. Fazendo dessa prática, ser artesanal.
Toda linguagem exige aprofundamento para se aprimorar, seja uma língua, um esporte ou uma técnica. Podemos treinar essa habilidade de estar conscientes na repetição em nossas variadas atividades manuais do dia a dia. Tomar a atitude de aprender com, buscar ativamente esse estado, pode criar um espaço interno mais possível, mais maleável, onde podemos brincar de ser aprendizes e agentes do mundo.