Os tempos são urgentes e… desacelerar é preciso

O fazer artesanal sempre se enlaça no tempo,  pede espaço, enquanto cria outro tempo. Quem cultiva a qualidade manual em seu fazer, sabe da alteração na percepção quando se faz algo com presença. A dedicação transforma a percepção, e o corpo se afina com o processo.

Sim, os tempos são urgentes e ao mesmo tempo precisamos desacelerar. Desacelerar não no sentido de andar devagar, e sim algo relativo a ritmos e perspectivas de cada ser, e sobre escapar da automatização maquinal.

A presença no processo traz luz e o que estamos fazendo ganha vida, se fazendo parte de um sentido na produção. Presença é qualidade necessária em nosso fazer e estar no mundo, ela dinamiza o tempo. É esse envolvimento entre tempo/presença e relação que permite, por exemplo, que o pão nasça em sua fermentação. Não se trata de saber que ele cresce em 40 minutos, mas sim de deixar ele crescer para virar pão, em seu tempo. No fundo estamos sempre falando de uma mudança de lógica no fazer e no pensar. 

Aprender o tempo é aprender por dentro das relações

Um conceito importante ao criar e manifestar é aprender quem se é. Porém algo fascinante acontece ao mesmo tempo: aprendemos que o outro é também. É a partir da experiência que se aprende a humanidade, e de onde pode nascer a tolerância e a empatia.

Essa relação molda a tolerância consigo mesma, com as frustrações, com os outros, com o mundo, e estica limites até que fiquem mais maleáveis, mais curvos. Porém, sem o tempo largo, vem a pressa. E a pressa leva à raiva, já notou?

Repetir para não se tornar máquina

A repetição é onde se enraíza o aprendizado e o fazer, ao mesmo tempo em que se faz novo a cada vez, aprimorando-o. Repetir não se trata de perder tempo. É com a repetição que a pessoa, artesã de si, aprende e se adapta em cada criação. Com isso o artesanal envolve a capacidade de criar soluções únicas, muitas vezes em resposta a necessidades específicas.

Nas tradições originárias, o tempo é espiralar.
Costuramos passado e futuro no agora.

“Ancestral é quem vive no meio do tempo sem tempo.
É quem veio e já foi e é quem ainda não veio.
Se veio, não virá. Se já foi, ainda não veio. É circular.
É o que garante a dimensão ética do pertencimento à vida, não como algo
que posso negociar, mas algo que ultrapassa o meu tempo de vida aqui.”
Ricardo Aleixo

Se olharmos através de uma perspectiva de tempo espiralar, cada ação, palavra, relação e manifestação cultural coexistem. O canto, o trabalho, a arquitetura, a música, os ensinamentos, as devoções e as técnicas do fazer são, ao mesmo tempo, memória e narração, desempenho e recriação, em que a narração honra e reconhece os saberes do passado, o fazer improvisa o presente através da agência de cada individualidade conectada com o entorno, e a recriação oferta fugas a outros possíveis futuros. Trata-se de uma tapeçaria viva e coletiva, na qual não residem monólogos, mas sim uma fertilização de parentescos que aduba o futuro, como diz Leda Maria Martins, em “Performances do tempo espiralar”.

No fazer, no pensar e no criar, nasce o novo. Mas é preciso tempo.
Pra gente conviver, é preciso tempo.
Pra ter curiosidade, é preciso tempo.
Pra gerar empatia, é preciso tempo.
Professores precisam de tempo. Aprendizes também.
Tempo é também saúde.
Tempo é um privilégio.

Tempo é uma criação humana coletiva, uma tecnologia.

A decisão de pausar ou descansar nem sempre é individual. Nem toda pausa é possível sem as condições para isso. Nossa exaustão crônica atual não é uma consequência do mundo acelerado: ela é seu projeto. Afinal, um corpo exausto, maquínico, obediente, serve a que propósito?

Acelerar e obedecer

É comum que quando nossas visões comuns atuais são chacoalhadas, a gente se pergunte, como fazer, portanto? Porém, pensar que existem fórmulas prontas é justamente a antítese do artesanal.

Se a aceleração nos torna obedientes, abrir espaço para o tempo e encontrar caminhos próprios para uma artesania pode significar aprender outras formas de fazer, fazendo, macro e micropolíticas, sem sermos esmagadas pela produtividade maquinal. 

“Não é possível perder o ontem sem também perder o amanhã”
Além da Psicologia Indígena

Essa relação com o tempo é um dos princípios centrais a serem revisitados hoje, diante da ameaça ao nosso futuro. Se prestarmos atenção, toda vida que veio antes sustenta a continuidade da própria vida. Olhar para o tempo torna-se elemento central na construção de outros futuros. É nossa percepção, nossa consciência sobre ele e nossa inteligência artesanal que dão vida ao tempo. 

Portanto, se o tempo é uma organização coletiva, é possível abrir brechas de um outro tempo, não para produzir mais, mas para questionar processos, criar sentidos, significados e um tempo que permita desautomatizar para criar e não apenas reproduzir.
. . .
Escrita artesanal por Silvia Strass com Ciça e Bruno Andreoni

ARTESANAL - MANIFESTO

As mãos como ponte dos afetos de dentro para fora
dão forma ao pensamento, à singular expressão.

O artesanal mobiliza o que há de mais humano em nós:
imaginar, criar e fazer,
dar sentido às emoções, memórias, relações,
dar formas, cores, sabores, funções,
dar movimento e beleza.

Nosso ativismo artesanal acontece no “fazendo”:
no olhar sobre e para o mundo,
na escolha de como consumimos e ocupamos o mundo,
na valorização do pequeno, do local e do autoral,
no manejo do corpo com as ferramentas e os materiais,
no aprendizado com o erro, a repetição e o tempo do fazer,
no contato com a natureza e nossas raízes artesãs.

É no “fazendo” que nos colocamos
corajosamente em atrito com o nosso fazer;
é no “fazendo” que transformamos
as coisas, a nós mesmos e o mundo para,
aos poucos,
reacender a sabedoria que está dentro de nós,
de cada um de nós,
de nossa ancestralidade e
do que queremos criar com sentido neste mundo.

Por um mundo feito à mão, um mundo feito por nós!