‘Trazer de volta’: é isso que significa o termo ‘relatio’, origem da nossa palavra “relação”, em latim. Ela também quer dizer referência.
Não é impressionante as histórias que as palavras contam dentro delas? ‘Trazer de volta’ vem trazendo à mente outras palavras-parentes: âncora, raiz, e também a ideia do que se faz pertencer, num sentido de se ver indivíduo não na separação, mas a partir daquilo a que nos referimos, daquilo com que nos conectamos, a partir de uma referência.
Com o tempo, o sentido se expandiu, incluindo múltiplas formas de vínculos e interações — pessoais, sociais, científicas.
[…] não pode fazer no mundo qualquer coisa que não faça a si mesmo,
não pode ter qualquer expectativa em relação a ele que não tenha em relação a si próprio;
ele nunca vai encontrar nada que não traga.
Não existe outro mundo além da delicada reciprocidade que emerge
de nossa inescapável relação com o mundo.
– Ativismo Delicado :: Allan Kaplan e Sue Davidoff
Estar no mundo é estar em relação o tempo todo — e se afetar, mesmo sem querer. A forma como falamos, ouvimos e nos conectamos molda nossas experiências, e nós mesmas. Claro, podemos escolher sobre a complexidade das interações, como e com quem nos relacionamos. Mas estar em relação é também estar no caos. Já que é vivo, não é algo capaz de ser controlável. E, por isso mesmo, pode ajudar a ter uma vida mais viva.
Envolver-se é um modo de existir.
Estar em relação é um exercício contínuo de escuta, que constrói uma bonita habilidade de criar pontes, e transitar entre diferentes mundos e linguagens. Dessa interação viva com o mundo, nasce um caminho que atravessa distâncias emocionais e sociais, florescendo em pertencimento, compartilhamento e empatia.
Importa lembrar que essa rede relacional é tecida na multiplicidade. É na potência de cada singularidade que a vida se renova.
Contemplar isso nos convida a refletir sobre a importância da autenticidade e da sensibilidade nas nossas trocas. Cada gesto, cada palavra, tem o poder de sustentar ou romper laços. Relação é território fértil para o aprendizado e a transformação, onde podemos nos reconhecer e reconhecer o outro, com presença e profundidade.
O artesão e sua inteligência artesanal
“É preciso ter muito cuidado com a palavra des.envolvimento.
Desenvolver é desconectar, é afastar das outras vidas,
é tirar do Cosmo. Nós vivemos de forma envolvida.”
— Nêgo Bispo
A prática artesanal envolve experimentação, combinações inesperadas de técnicas e materiais que abrem espaço para descobertas. O toque é central.
A sensibilidade tátil permite perceber as nuances da matéria e ajustar os gestos, criando uma dança entre criador e objeto, uma co-criação. Muitas vezes, é o próprio comportamento do material que guia o próximo passo. O processo é vivo.
A produção artesanal não se resume à técnica. É uma inteligência que emerge da relação: criatividade, habilidade prática, conhecimento empírico e escuta se entrelaçam numa lógica oposta à da produção em massa. O toque e o corpo importam. O tempo também.
Ao escolher um material, escutamos sua história, suas propriedades, seu ritmo. Madeira, tecido, barro, papel — nada é neutro. Cada escolha carrega camadas: físicas, simbólicas, culturais. Pode-se dizer que escutar o material é também um gesto espiritual. É reconhecer que tudo no mundo é vivo, e que nada se cria sozinho.
Praticar uma relação artesanal é reaprender a construir com, junto. O objeto não está a serviço de quem maneja, eles compõem em conjunto. Construir junto é a base das práticas artesanais, de ceramistas a pescadores.
Cada material carrega um território. Histórias são heranças e viram a transmissão viva do saber. Práticas artesanais mantêm vivas tradições e saberes, perpetuando formas de conhecimento transmitidas não por manuais, mas por convivência, de corpo em corpo. Essa conexão profunda floresce em formas, símbolos e histórias, que carregam valor estético, emocional, cultural e também autoral, já que a reprodução de uma técnica também carrega o traço especial de cada mão.
A inteligência artesanal segue envolvendo uma rica e multifacetada multidão, incluindo autor, materiais, processo criativo e comunidade. Essa relação não só resulta em criações únicas e significativas, mas também promove um entendimento mais profundo da identidade de pessoas e lugares. A partir da relação em comunidade — e, nos casos de produção artesanal em si — pode promover uma economia mais sustentável e valorização do que é feito à mão, destacando a singularidade e a história por trás de cada peça ou produto.
As artesanias, enfim, podem também ser um lugar rico de prática de abertura e escuta do mundo. Escutar o material, a madeira, o papel, as árvores, e aprender a construir com, construir junto. Assim como o objeto não está a serviço do artesão, eles estão compondo em conjunto, assim também nós estamos. E nesse fazer, nessa escuta do mundo através da matéria, talvez a gente também aprenda a se escutar melhor. Aprenda a estar. Aprenda a compor.
Afinal, se tudo que fazemos é também relação, talvez seja hora de olhar com mais cuidado para o tempo dessas trocas.
Como sustentamos vínculos num mundo que se desfaz em urgência?
Como cultivamos presenças, em vez de apenas presenciar?
O que os processos artesanais nos ensinam sobre o tempo?
Seguimos tecendo.
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Escrita artesanal por Silvia Strass com Ciça e Bruno Andreoni